#61: A calma é irmã do simples
Às vezes, é no gesto mais simples que a vida encontra espaço para respirar.
Ser sul-mato-grossense é um dado da minha biografia que pouca gente conhece. Nasci na capital do estado, Campo Grande, no outono de 1981, pouco tempo depois que meus pais se mudaram de São Paulo para lá a trabalho.
Guardo dessa época todas as memórias da minha primeira infância, já que deixei a cidade aos 6 anos e nunca mais voltei. Ainda assim, fecho os olhos e vejo a sala com sofá de alvenaria e almofadas laranjas, onde eu assistia ao Show da Xuxa. Lembro de andar sempre descalça, ouvir os passarinhos, ver as flores amarelas, que pareciam copinhos no jardim, de comer melancia no quintal, do grande quadro de tapeçaria que ficava na sala de jantar.
Mas a marca mais profunda que trago de lá é, sem nenhuma dúvida, o gosto pela música caipira. Esteja eu onde estiver, as polcas paraguaias, as guarânias e o ritmo sincopado dos arpejos da viola me causam emoção instantânea — “ao revelar que eu vim da fronteira onde o Brasil foi Paraguai”, como diz a canção de Paulo Simões e Almir Sater, chamada Sonhos Guaranis (ouça que linda).
Entre o vasto repertório de músicas que falam da natureza, de amores perdidos, violeiros que tocam suas sinas ou das comitivas, tem uma canção em especial que me emociona demais. Ela se chama Irmãos da Lua, e a conheci mais recentemente num show do Almir Sater (achei exatamente essa versão no YouTube e aqui está se quiser ouvir).
Ela foi composta por Renato Teixeira e, no show, foi cantada por Almir e sua irmã, Gisele Sater. Diz assim:
Somos todos irmãos da Lua
Moramos na mesma rua
Bebemos do mesmo copo
A mesma bebida cruaO caminho já não é novo
Por ele é que passa o povo
Farinha do mesmo saco
Galinha do mesmo ovo
Como boa representante do cancioneiro popular, me lembra, de modo singelo, do que nos aproxima, nos conecta, das pequenas intersecções que nos fazem humanos e capazes de compartilhar sonhos e medos. Sempre que a ouço, sinto que, ainda que vivamos situações e conjunturas completamente diferentes, há, quase sempre, sentimentos que compartilhamos e necessidades que nos atravessam em comum. E aqui me lembro de outra canção — neste caso, composta por Frejat e Dulce Quental — que diz: “todo mundo é parecido quando sente dor” (lembra dessa?).
Mas voltando à canção do Renato, lá pelas tantas ela diz:
E a calma é irmã do simples
E o simples resolve tudo
Essa estrofe me arrebata! Principalmente quando me sinto emaranhada pelos questionamentos que a racionalidade insiste em alimentar na busca, fadada ao fracasso, de dar conta de todas as demandas inconciliáveis da vida. Como pode ser transformador lembrarmos que “o simples resolve tudo” e que, se não resolver, então: já está resolvido!
Diante do que realmente não podemos mudar, só há uma saída: aceitar. Mesmo que doa, mesmo que seja injusto, mesmo que pareça impossível. Tem coisas que a vida impõe e que, quanto mais a gente rejeita, afasta, nega, mais crescem, dominam e tomam conta.
E tem mais! O medo adora quando a gente se rebela contra o inevitável. Porque essa rebeldia dá a ele — o medo — a impressão de resistência e proteção. Uma ilusão muito cara, que nos leva à exaustão. Lutar contra o que não se pode transformar ou deter, além de inútil, é muito, muito cansativo. E a prova disso é que aqui estamos nós: com nossos esgotamentos, nossos burnouts, nossos ataques de ansiedade — dando murros em pontas de faca.
E se, ao invés disso, a gente simplesmente reconhecesse os nossos limites? E se, diante daquilo que não temos como controlar, a gente observasse a nossa condição com gentileza — sem confundir limite com fraqueza? E se aceitássemos os contornos e as bordas da vida, não como desistência, mas como um jeito mais amoroso de estar no mundo? É uma forma de ser mais simples mesmo. E isso, de fato, muitas vezes, resolve tudo.
Muito Obrigada por chegar até aqui.
Espero que esse texto tenha te feito companhia de um jeito bom. Se algo te tocou, se alguma reflexão ressoou aí dentro, vou adorar saber — me escreve ou compartilha com alguém que você ache que pode gostar de ler também?! Que tal me contar qual música tem inspirado seus dias?
Ah, e antes de me despedir, quero contar ainda que a Lista de interessadas para a minha próxima Leitura em Grupo do livro O Caminho do Artista já está disponível. Se quiser receber as informações em primeira mão assim que as inscrições abrirem para a turma de 2026, é só preencher o formulário por aqui.
Um beijo!
Dani Moraes
